Por que a Novo Tempo transmite o horário eleitoral?
Exibição da propaganda política é uma obrigação legal das emissoras de TV aberta e não representa apoio a partidos ou candidatos; medida também está prevista nas diretrizes da Igreja Adventista
Por Gabriela Frontini 24/09/2026 - 16h03
Texto: Wagner Cantori
A transmissão do horário eleitoral gratuito pela Rede Novo Tempo é uma exigência da legislação brasileira, e não uma decisão editorial da emissora. A obrigação está vinculada à outorga pública que permite à instituição operar na televisão aberta e não altera seu posicionamento apartidário nem sua missão de comunicar o evangelho.

A Constituição Federal estabelece que os serviços de radiodifusão são de competência da União, podendo ser explorados diretamente ou por meio de concessões, permissões e autorizações. Assim, embora tenha autonomia sobre sua programação, a Novo Tempo deve cumprir as obrigações legais relacionadas à utilização desse serviço público.
Entre essas obrigações está a veiculação da propaganda eleitoral gratuita. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que as emissoras abrangidas pela legislação transmitam os programas e as inserções nos horários estabelecidos. A Resolução nº 23.776/2026 regulamenta o plano de mídia da eleição presidencial e prevê procedimentos até mesmo para situações em que partidos deixam de entregar seus materiais.
Isso significa que a Novo Tempo não escolhe os candidatos que aparecem no horário eleitoral, não produz suas mensagens nem exerce controle editorial sobre o conteúdo. A transmissão obrigatória, portanto, não representa concordância ou apoio institucional às ideias apresentadas.
O que diz a Igreja Adventista?
Em maio de 2026, a Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia aprovou o documento “Os Adventistas e a Política”, que reafirma a orientação de não utilizar os meios de comunicação da Igreja para promoção político-partidária.
O documento, conforme a diretriz institucional citada, estabelece uma exceção para conteúdos impostos obrigatoriamente por lei, mencionando expressamente a Rádio e a TV Novo Tempo.
A orientação distingue, portanto, a promoção voluntária de candidatos do cumprimento de uma obrigação legal. Também reafirma o respeito às autoridades civis e às leis que não contrariem os princípios da fé adventista.
Obediência às leis e fidelidade à fé
Essa distinção também encontra fundamento bíblico. Em Romanos 13:1-7 e 1 Pedro 2:13-17, os cristãos são orientados a respeitar as autoridades constituídas. Já Atos 5:29 estabelece o limite dessa obediência: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.”
O princípio é especialmente importante quando se compara a transmissão do horário eleitoral à guarda do sábado.
Para os adventistas, uma exigência de trabalhar no sábado contra a própria consciência representa um conflito direto com um mandamento divino. Nesse caso, a fidelidade a Deus deve prevalecer.
A legislação eleitoral, por sua vez, não exige que a Novo Tempo negue sua fé, abandone a pregação do evangelho ou declare apoio a candidatos. Determina apenas a disponibilização de espaços na programação, conforme as regras aplicáveis às emissoras de televisão aberta.
Dessa forma, segundo o entendimento institucional apresentado, a transmissão obrigatória não configura conflito entre a legislação brasileira e os princípios bíblicos defendidos pela Igreja.
Se uma determinação do Estado exigisse a violação de um mandamento divino, a questão seria diferente. Nessa circunstância, nenhuma consequência administrativa ou financeira justificaria o abandono de um princípio de consciência.
O que acontece se a emissora não transmitir?
O descumprimento das regras eleitorais pode resultar em sanções. O artigo 56 da Lei nº 9.504/1997 prevê que a Justiça Eleitoral poderá determinar a suspensão da programação normal da emissora por 24 horas, com duplicação do período em caso de reiteração da conduta.
Em determinadas circunstâncias, a recusa deliberada em cumprir uma ordem direta e individualizada da Justiça Eleitoral também pode gerar responsabilização penal pessoal, desde que estejam presentes os requisitos legais.
Entretanto, a posição da Novo Tempo não se fundamenta no receio de penalidades, mas no entendimento de que a obrigação de transmitir o horário eleitoral não contraria seus princípios religiosos.
Uma missão que permanece
A Novo Tempo reafirma seu compromisso com o apartidarismo. A exibição obrigatória da propaganda eleitoral não representa apoio a qualquer candidato, partido, federação, coligação ou ideologia.
Nos espaços sob sua responsabilidade editorial, a emissora continuará dedicada à sua missão de comunicar o evangelho eterno, apresentar Jesus e levar esperança às pessoas.
Cumprir a legislação que regulamenta a televisão aberta é parte da responsabilidade institucional de manter esse serviço e continuar alcançando milhões de brasileiros.