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Dívidas surgiram antes do dinheiro, diz antropólogo americano


Por marciobasso 22/07/2011 - 01h29

Pintura do século XVIII do britânico William Hogarth mostra o interior de uma prisão para endividados (Foto: Reprodução)


O aumento do endividamento no Brasil preocupa o governo e os brasileiros, mas uma análise histórica sobre este tipo de problema indica que, no longo prazo, pode não ser algo tão novo ou urgente. “Na história da humanidade, a maior parte das pessoas foi endividada, pelo menos em algum ponto de sua vida. O aumento do endividamento é uma repetição da história”, explicou David Graeber, antropólogo que estudou a história do dinheiro e das dívidas, em entrevista ao G1.

Pintura do século XVIII do britânico William Hogarth mostra o interior de uma prisão para endividados (Foto: Reprodução)


Graeber lançou neste mês nos Estados Unidos o livro “Debt, The First 5000 Years” (Dívida, os primeiros 5 mil anos), em que analisa a perspectiva histórica das relações de dívida. Segundo ele, a história do dinheiro é a mesma história do sistema de crédito e débito. Ao contrário do que se pode pensar, entretanto, a dívida surgiu antes do dinheiro. “Os sistemas de crédito vieram primeiro, e as moedas foram inventadas muito tempo depois”, explicou.
Sempre que um povo vence o outro em uma guerra trata-se da ideia de conquista, e os derrotados devem aos vencedores por isso, explicou. Os povos sempre têm que pagar por terem sido conquistados, ele explica, e as vítimas se sentem responsáveis por seu próprio sofrimento.
Escravidão e liberdade
“Filosoficamente, pode-se dizer que não há muita diferença entre ‘se alugar’ como trabalhador ou ‘se vender’ como escravo”, disse. Neste sentido, pode-se dizer que as pessoas são escravas no mundo atual. “Isso, sim, pode ser eliminado. O sistema em que vivemos é que precisa ser moldado por instituições que impeçam que a maior parte das pessoas viva como se fossem escravas de tantas obrigações sociais.”
O problema, ele continua, é que não adianta falar em comunismo como alternativa a este capitalismo de que fala. “Na Guerra Fria, falava-se em um conflito entre comunismo e capitalismo, mas o comunismo que existiu nunca se afastou do dinheiro, dos salários, e por isso hoje sabemos que nunca houve o comunismo de verdade, mas um capitalismo de estado.”
Dinheiro, ele diz, é apenas um sistema matemático em que se pode medir o valor das coisas proporcionalmente. “Isso vai ocorrer em qualquer sociedade organizada, seja qual for o sistema, levando a alguma forma de capitalismo.”
Solução virtual
Apesar do tom de “catástrofe” da avaliação dele em relação a dívida e escravidão, Graeber diz que é muito provável que um sistema em que as pessoas não se sintam escravas seja desenvolvido. Ele diz que isso pode acontecer especialmente com o aprimoramento da economia e do que chama de “dinheiro virtual”.
O termo é a forma de explicar como funciona a economia global desde que, em 1971, os Estados Unidos abandonaram o padrão ouro, e o dólar deixou de ter uma equivalência real de seu valor, passando ao mundo “virtual”. “Quando se fala em moeda virtual, ela é uma promessa, não é algo físico.”
A história da economia, ele explica, acompanha ciclos de 5 séculos em que a moeda usada é real, como o ouro, alternados por mais 5 séculos em que o dinheiro é uma representação virtual dos valores e dos sistemas de crédito e débito. “Estamos em um período de transição. As concepções básicas de o que é o dinheiro, como ele funciona, estão em processo de mudança e as pessoas estão se preparando para lidar com esta nova realidade”.
Faz 40 anos que isso começou, e ele diz que é muito pouco tempo se pensamos que os ciclos funcionam em períodos de 500 anos. “Os problemas básicos da economia que levaram ao rompimento com o padrão ouro em 1971 estão sendo sempre empurrados para o futuro. Estamos tentando construir um sistema de crédito baseado no sistema de ouro, e foi isso, em parte, que levou à crise financeira global iniciada em 2008”, disse, alegando que os protestos recentes na Europa são apenas a continuação natural dessa busca por um sistema que proteja não só os credores, mas também os devedores.
“O problema é que não há muita saída. Quando as pessoas têm poder sobre você, o correto seria questionar, tentar descobrir por que existe essa dívida, mas no momento em que isso acontece, já se está usando a linguagem da dívida, e fica difícil escapar disso. Estamos presos a isso milhares de anos mais tarde. Desde a religião, em que devemos nossa vida a Deus, até o pagamento de impostos ao Estado.”
Daniel Buarque Do G1, em São Paulo