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Na Mira da Verdade

Maria na Bíblia

Na Mira da Verdade


Por jeferson 06/03/2014 - 06h05

Maria na Bíblia

Recebi por e-mail, de uma amiga telespectadora, essa charge católica em que Maria supostamente se defende dos argumentos protestantes contra sua veneração. Na referida charge, irmãos católicos argumentam que a Bíblia faz referências à Maria e que, portanto, há motivos bíblicos para reverenciá-la.

Porém, a questão não é se ela está ou não na Bíblia, mas se Maria é mencionada nas Escrituras como sendo digna de ser venerada.

Partindo da pergunta correta (“Maria é mencionada como sendo objeto de veneração?), percebemos que realmente ela é citada na Palavra de Deus, porém, os textos que a mencionam deixam claro que, mesmo sendo uma pessoa especial por ter sido escolhida divinamente para abrigar no ventre a Segunda Pessoa da Divindade, ela não é objeto de culto. Afinal, a mãe de Jesus não possui função de interceder pelos pecadores (veja-se 1 Timóteo 2:5). A Bíblia também nos mostra que Maria não foi para o Céu com Ele por ocasião da ascensão do Salvador. Vejamos:

“Eles sempre se reuniam todos juntos para orar com as mulheres, a mãe de Jesus e os irmãos dele” (Atos 1:14, Nova Tradução na Linguagem de Hoje).

Perceba que o costume de Maria em reunir-se para orar com os demais seguidores de Cristo se perpetuou depois da ascensão dEle, mencionada em Atos 1:9-11 (alguns versos antes). Por isso, esse versículo (Atos 1:14), utilizado pelos católicos na referida ilustração para justificar a veneração a Maria, é um “tiro no próprio pé”. Afinal, Atos 1:14 não dá margens para crermos na ascensão de Maria.

 

Em relação aos demais textos utilizados, uma simples leitura destes versículos revela que eles foram descontextualizados para dizerem aquilo que o catolicismo quer que eles digam. Todavia, devemos permitir que a Bíblia fale por si mesma, segundo os próprios critérios interpretativos dela, de maneira independente de nossas crenças e pressupostos religiosos.

Analisarei com você brevemente o que cada texto usado na charge realmente diz sobre Maria:

Lucas 2:41-52 – Obviamente, ao mencionar esse trecho do evangelho de Lucas, os irmãos católicos corretamente alegam que Jesus foi submisso à Maria. Porém, precisamos atentar para o tipo de submissão que Ele tinha para com ela. Uma simples leitura revela que não era uma submissão hierárquica, como se ela fosse objeto de veneração, mas, uma submissão de filho para com a mãe.

Além disso, o próprio texto afirma, na Nova Versão Internacional, que Jesus não era obediente apenas à Maria, mas, também a seu pai (humano), José. Se a submissão de Jesus a Maria indicasse que ela possui alguma hierarquia entre as pessoas da divindade, o mesmo significaria em relação a José, pois, Jesus era submisso e obediente também a ele. Com isso, arrumaríamos “argumentos” até mesmo para a veneração do pai humano de Jesus.

Caso a submissão de Cristo a Maria fosse algo tão sério como alega o catolicismo, a ponto de torná-la intercessora da humanidade, Jesus não teria, respeitosamente, pedido a Sua mãe para não se intrometer em assuntos que eram apenas da alçada dEle:

“Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora.” (Jo 2:3-4)

O termo “mulher” empregado por Jesus, na cultura da época, era uma forma de chamar a mãe de “madame”, diríamos assim. Por isso, a alegação de desrespeito à Maria por parte de alguns protestantes é insustentável.

Também é importante destacar que em Lucas 1 (outro capítulo mal-interpretado pela charge católica), Maria, “bendita entre as mulheres” (Lc 1:42) por ter sido escolhida para ser a mãe do Salvador, reconhece a si mesma como uma pecadora: “e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Dessa maneira, o papel de intercessão atribuído a ela, além de contradizer abertamente a 1 Timóteo 2:5, é algo totalmente contrário ao que ela mesma pensava a respeito de si. Não tenho dúvidas de que após a volta de Cristo, quando os filhos de Deus de todas as épocas estiverem reunidos, Maria ficará muito chateada por terem lhe dado funções que ela nunca sonhou para si, contradizendo assim tudo aquilo que ela aprendeu na cultura hebraica sobre a adoração ou veneração ao único Deus de Israel (cf. Dt 6:4).

Em João 2:5 encontramos o que podemos chamar de “o mandamento de Maria”. Nesse verso ela recomenda que as pessoas façam tudo o que Ele – Jesus – disser. Não incentivou em momento algum a obedecê-la, nem mesmo sugeriu que ela fosse a “intercessora” da humanidade diante Cristo. Seria importante que os irmãos e teólogos católicos deixassem Maria falar por si, ao invés de colocarem palavras em sua boca.

João 19:26, 27 –  Bem diferente do que alega a referida charge, nesse texto Jesus não entrega Maria para ser mãe da humanidade, mas, para ser cuidada pelo “discípulo a quem ele amava”. No próprio verso 27 fica claro esse propósito do Salvador: “… Daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua família” (Nova Versão Internacional). Veja que o verso sequer insinua que João entendeu que Maria deveria ser recebida como “Mãe da humanidade”. Apenas como membro da família do apóstolo. Isso possivelmente porque Jesus era filho único de Maria e, seus irmãos (cf. Lc 8:19-21; Mt 12:46-50; Mc 3:31-35), filhos apenas de José de um primeiro casamento.

Apocalipse 12:1[1] – Estudiosos católicos alegam que essa passagem se refere à ascensão de Maria e que, portanto, Apocalipse 12 a qualifica como a “Rainha do Céu”. Porém, “essa linha de interpretação falha em não reconhecer a natureza simbólica do livro do Apocalipse”[2].

Quando analisamos todo o capítulo, vemos que João não tinha em mente a mãe de Jesus quando mencionou a “mulher vestida de Sol”. Especialmente os versos 5 e 6 são fundamentais para a correta compreensão do pensamento do apóstolo.

O verso 5 diz: “Ela deu à luz um filho, um homem, que governará todas as nações com cetro de ferro. Seu filho foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono”.

Qualquer leitor pode compreender que não foi Maria a pessoa a ser arrebata, mais sim o “filho”: Jesus Cristo. Não é correto ler o texto e dar a ele o próprio ponto de vista para defender que Maria é a “Rainha do Céu”. Quem foi arrebatado ao trono e se tornou o “Rei do Céu” foi Jesus, não ela. E não poderia ser diferente porque “… abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (At 4:12).

Além disso, a Bíblia é clara em afirmar que apenas Jesus se encontra à destra do Pai: “O Filho brilha com o brilho da glória de Deus e é a perfeita semelhança do próprio Deus. Ele sustenta o Universo com a sua palavra poderosa. E, depois de ter purificado os seres humanos dos seus pecados, sentou-se no céu, do lado direito de Deus, o Todo-Poderoso.” (Hebreus 1:3, Nova Tradução na Linguagem de Hoje)

Por sua vez, o verso 6 nos impede de aceitar que a nobre mãe de Jesus faça parte dessa profecia do livro do Apocalipse. Leiamos: “a mulher fugiu para o deserto, para um lugar que lhe havia sido preparado por Deus, para que ali a sustentassem durante mil duzentos e sessenta dias”.

Estudiosos que interpretam as profecias utilizando o princípio dia-ano (cf. Nm 14:34; Ez 4:5, 6) compreendem que os 1260 dias de Apocalipse 12:6 se referem a 1260 anos de perseguição contra a igreja – a mulher (esse texto é paralelo a Daniel 7:25). Em profecia, “mulher” representa o povo de Deus ao longo da história (ver Mq 4:9-5:4; Is 9:6; 7:14; 26:17; 66:7-8).

Por isso, a “mulher” se refere primeiramente a Israel que deu a luz o Messias, trazendo-o para todos nós (cf. Rm 9). Refere-se também à Igreja, que prosseguiu na missão de levar o Messias ao mundo. Logo, a “mulher” representa o povo de Deus em suas duas fases: Israel e Igreja (veja os textos de 2Co 11:2 e Ef 5:25-32, onde “mulher” representa a igreja no Novo Testamento).[3]

Portanto, os 1260 anos de perseguição no período medieval contra a igreja cristã, que foi de 538 a 1798 d.C, é o evento histórico para o qual João apontava. Maria não viveu tudo isso e, portanto, jamais poderia estar sendo mencionada nessa profecia! Apocalipse 12 é uma profecia escatológica, ou seja: se refere aos últimos acontecimentos e se encontra num período histórico bem posterior à Maria, mãe de Jesus.

Há outro aspecto que devemos considerar: a mulher de Apocalipse 12 é mencionada novamente em Apocalipse 17 como sendo a “grande prostituta”. Isso jamais poderia se referir à Maria. As mulheres de Apocalipse 12 e 17 representam a mesma igreja em duas fases: de pureza doutrinária (mulher vestida de Sol) e de apostasia (prostituta e embriagada com o sangue dos mártires, mortos na Idade Média. Veja-se Apocalipse 12:6).

Se em Apocalipse 12 a “mulher vestida de Sol” representasse Maria, obrigatoriamente, por questões exegéticas (de interpretação) ela deveria ser representada pela “grande prostituta” de Apocalipse 17. Isso seria uma aberração, uma heresia e uma afronta à tão nobre mulher[4] que nem está presente entre nós para poder se defender.

Considerações finais

Veja o perigo de tirar um texto de seu contexto, como o fez o autor dessa charge católica. Ele cria problemas interpretativos muito sérios, que comprometem a fé até mesmo dos sinceros e devotos irmãos católicos apostólicos romanos.

O “Está Escrito” e o “Assim Diz o Senhor” nunca devem ser colocados em uma posição de inferioridade em relação ao “Assim Diz a Igreja”. A Bíblia não deve ser interpretada à luz da Igreja e sim a Igreja deve formular suas doutrinas tendo como base as Escrituras.

A Igreja Católica Apostólica Romana necessita, com urgência, apoiar a própria teologia na Palavra de Deus, ao invés de se apoiar na Tradição eclesiástica (leia Mt 15:3, 9). Fazer o contrário (interpretar a Bíblia segundo a Tradição) é trazer sobre si e aos membros da referida denominação sérios prejuízos espirituais, que terão consequências eternas.

Que todos nós, protestantes ou católicos, sejamos como os crentes de Beréia na maneira de avaliamos os ensinos religiosos que nos são transmitidos no púlpito ou na missa:

“Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo” (At 17:11, Nova Versão Internacional).

 

 

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[1] Para uma análise mais ampla de Apocalipse 12, bem como dos detalhes da visão e as conexões que há entre Apocalipse 12 e Gênesis 3:15, mostrando que João inspira sua visão primeiramente na primeira luta entre o bem e o mal ocorrida no Éden entre Eva e Satanás, veja-se Rodrigo P. Silva em “Comentário Gramático Histórico do Apocalipse” (Engenheiro Coelho, SP: Faculdade Adventista de Teologia, 2013), p. 146 e 147. Ver também Ranko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ: Commentary on the Book of Revelation (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009), p. 373-406.

[2] Stefanovic, Commentary on the Book of Revelation…, p. 386.

[3] Rodrigo P. Silva, “Comentário Gramático Histórico do Apocalipse”. (Engenheiro Coelho, SP: Faculdade Adventista de Teologia, 2013), p. 146. Anotações para acompanhamento de classes.

[4] Uma resposta à alegação católica de que Maria foi virgem por toda sua vida poderá ser encontrada no livro Na Mira da Verdade, vol. 2, págs. 74-76. Para maiores informações acesse www.leandroquadros.com.br/livros